A perturbadora idéia de uma
interação das coisas vivas -
de que todas elas, de fato,
estavam imbuídas de
eletricidade - tomou impulso
gigantesco em novembro de
1780, quando a mulher de um
cientista bolonhês, Luigi
Galvani, descobriu
casualmente que uma
máquina usada para gerar
eletricidade estát ica fazia
uma perna de sapo amputada
pular espasmodicamente.
Chamado a ver o fato, Galvani
surpreendeu-se, mas logo se
perguntou se a eletricidade
não ser ia realmente uma
mani festação de vida.
Achando que sim, no dia de
Natal, escreveu em suas
anotações: "O fluído elétrico deve
ser considerado um meio de
excitar a força neuromuscular".
Nos seis anos seguintes, Galvani
estudou os efeitos da eletricidade
sobre a coordenação muscular, até
descobrir acidentalmente que as
pernas de sapo também se mexiam
sem a aplicação de uma corrente
elétrica, desde que os fios de
cobre dos quais pendiam fossem
impulsionados pela vento contra
uma grade de ferro.
Compreendendo que a
eletricidade, nesse circuito
tríplice, só podia provir dos
metais ou das pernas, Galvani,
firmemente inclinado a tomá-la
por uma força viva, acabou
associando-a aos tecidos animais
e atribuindo a reação a um fluído
ou energia vital, inerente ao corpo
dos sapos, ao qual chamou de "eletricidade animal".
As descobertas de Galvani, a
princípio, receberam o caloroso
apoio de seu compat riota
Alessandro Volta, um físico da
Universidade de Paiva, no ducado
de Milão. |
Mas quando, repetindo
a experiência de Galvani , Volta
notou que só obtinha o efeito
elétrico ao usar dois metais
diferentes, escreveu ao Abade
Tommaselli, dizendo-lhe ser óbvio
que a eletricidade não provinha
das pernas de sapo, mas sim "da
simples aplicação de dois metais
de diferente qualidade".
Concentrando-se nas propriedades
elétricas dos metais, Volta chegou
em 1800 à invenção de uma pilha
composta por discos de zinco e
cobre a lternados e um pedaço de
papel úmido separando as camadas.
Instantaneamente
carregável , a pilha de Volta
enfim libertava os
pesquisadores de sua
dependência da eletricidade
natural ou estática, poi s
servia para produzir corrente
elétrica uma inf inidade de
vezes - e não apenas uma,
como a garrafa de Leyden.
Precursora de nossos
diferentes tipos de
acumulador, ela revelava uma
eletricidade artificial ,
cinét ica ou dinâmica, que por
pouco não obliterava a noção
de uma energia vital especial
nos tecidos vivos formulada
por Galvani.
Apesar de ter aceito de início
as descobertas de Galvani ,
Volta escreveu mais tarde:
"Se excluirmos dos órgãos
animais toda atividade
elétrica própria,
abandonando assim a
atraente idéia sugerida pelas
belas experiências de Galvani ,
poderemos considerar tais
órgãos como simples
eletrômetros de um tipo novo
e precisão extraordinária".
Malgrado a profética
afirmação de Galvani, pouco
antes de sua morte, de que
um dia a análise de todos os
aspectos fisiológicos de suas
experiências permitiria "um
melhor conhecimento da
natureza das forças vitai s e
de sua duração específica, segundo as variações de sexo,
idade, temperamento, saúde e
da própria constituição da
atmosfera", os cientistas
negligenciaram suas teorias e
as negaram na prática.
Poucos anos antes, sem que
Galvani o soubesse, o jesuíta
húngaro Maximilian Hell revivera
a idéia, expressa por Gilbert , de
que a pedra-ímã transmit ia aos
metais ferrosos características da
mesma índole da alma; com essa
idéia na cabeça, ele inventara uma
singular disposição de lâminas de
aço magnetizado para curar a si
mesmo de um reumatismo
persistente. |
Um amigo seu, o
físico vienense Franz Anton
Mesmer, que se interessara pelo
magnetismo ao ler Paracelso,
impressionou-se com as curas de
várias doenças em outras pessoas,
logo empreendidas por Hell, e deu
início a uma série de experiências
para comprová-las. Sem demora,
Mesmer se convenceu de que a
matéria viva t inha uma
propriedade suscetível à ação de "forças magnéticas terrestres e
celestiais", propriedade a que
chamou de "magnetismo animal",
em 1779, e à qual dedicou uma
tese de doutoramento intitulada A
inf luência dos planetas sobre o
corpo humano.
Ao saber que havia
um padre suíço, J. J. Gassner,
curando doentes pelo tato,
Mesmer adotou com sucesso sua
técnica e proclamou que algumas
pessoas, entre as quais se incluía ,
possuíam mais força magnética
que outras.
Malgrado a aparência de que essas
surpreendentes descobertas da
energia bioelétrica e biomagnética
levariam a uma nova era de
pesquisas capaz de unir numa só
coisa a física, a medicina e a
fis iologia, a porta novamente foi
fechada, dessa vez por mais de um
século.
Onde outros tinham
falhado, Mesmer era bem sucedido, tratando de casos
graves, e isso aguçou a inveja
dos demais médicos
vienenses. Atribuindo suas
curas à feitiçaria e ao Diabo,
eles se organizaram em
comissão para investigá-las.
Declarando-se a comissão
contra seus feitos, Mesmer f o i
expulso da c lasse médica e
int imado a abandonar sua
prática. |
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