Em 1947, Jean Antoine
Nollet , um abade e físico
francês, tutor do delfim, foi
informado por um físico
alemão de Wittenberg de que
a água que caía gota a gota de
um tubo capilar poderia
correr num fluxo constante,
caso o tubo fosse eletrificado.
Após repet ir a exper iência do
alemão e acrescentar-lhe
outras de sua própria
concepção, Nollet passou,
como disse mais tarde, "a
acreditar que essa virtude
elétrica, empregada de certa
maneira, poderia ter algum
efeito sobre os corpos
organizados, l icitamente
vistos como máquinas
hidrául icas fabricadas pel a
própria natureza".
Nollet pôs
várias plantas, em vasos
metál icos, perto de um
condutor e f icou intrigado ao
verif icar que seu r itmo
respiratório aumentava.
Numa longa série de
experiências, testou não só
narcisos, mas também
andorinhas, gatos e pombos,
notando que todos eles
perdiam peso mais depressa
quando eletrificados.
Decidido a averiguar a eventual
influência dos fenômenos
elétricos sobre e germinação,
Nollet plantou dezenas de
sementes de mostarda em dois
pequenos recipientes ,
eletrificando um deles, durante
uma semana, das 7 às 10 da manhã
e das 3 da tarde às 8 da noi te .
Findo o prazo, todas as sementes
do recipiente eletrificado tinham
germinado e chegado a uma altura
média de 15 a 16 lignes - a linha,
velha medida francesa,
correspondente à duodécima parte
da polegada, ou cerca de 2,25
milímetros. |
Das sementes não
eletrificadas, só três tinham
brotado, medindo apenas de 2 a 3
lignes de altura. Sem nem sequer
imaginar por quê, Nollet apenas
pôde sugerir, em seu longo
comunicado à Academia Francesa,
que a eletricidade parecia ter
efeitos profundos sobre o
crescimento das formas vivas.
A conclusão de Nollet foi
formulada poucos anos antes de
uma notícia alvoroçar a Europa: a
de que Benjamin Franklin, em
Filadélfia, captara a descarga
elétrica de um raio soltando um
papagaio em meio a uma
tempestade.
Atingindo uma ponta
de metal na armação do papagaio,
o raio descera pela linha molhada
até uma garrafa de Leyden,
aparelho inventado em 1746, na
Universidade de Leyden, que
permi tia condensar a eletricidade
em água e descarregá-la numa única explosão súbita. Até então,
só a eletricidade estát ica,
produzida por um gerador eletrostático, podia ser
condensada numa garrafa de
Leyden.
Enquanto Franklin colhi a
eletricidade das nuvens, o
brilhante astrônomo Pierre
Charles Lemonnier, admitido
na Academia Francesa aos 21
anos e mais tarde aclamado
por sua descoberta da
obliquidade da eclíptica,
determinava que, mesmo em
dias ensolarados, existe na
atmosfera terrestre um estado
permanente de atividade
elétrica. Continuava a ser
porém um mistério a ação das
cargas onipresentes sobre as
plantas.
A tentat iva seguinte de
adaptar a eletricidade
atmosférica à frutificação das
plantas ocorreu na Itália. |
Em
1770, um certo Prof. Gardini
esticou vários fios de arame
sobre uma produtiva
plantação monástica em
Turim. Em pouco tempo,
muitas das plantas
murchavam e morriam. Mas a
plantação reviveu tão logo os
monges ret iraram os fios.
Gardini deduziu que ou bem
as plantas tinham sido
privadas de um fornecimento
natural de eletricidade
necessário a seu crescimento,
ou bem tinham recebido uma
dose excessiva.
Ao saber que ,
na França, os irmãos Joseph-
Michel e Jacques-Étienne
Montgol f ier t inham feito
subir um imenso balão cheio
de ar aquecido, permi tindo a
dois passageiros viajar 10
quilômetros sobre Paris em
25 minutos, Gardini recomendou
que esse novo invento fosse
aplicado à horticultura, ligandose
a ele um longo f io através do
qual a eletricidade pudesse ser
conduzida de grandes alturas até
as plantações.
Essas propostas francesas e
italianas pouco interessaram aos
figurões científicos de então, que
já começavam a dar mais atenção
aos efeitos da eletricidade sobre
os corpos inertes, em detrimento
dos vivos. Também não se
comoveram muito quando outro
homem da Igreja, o Abade
Bertholon, publicou em 1783 seu
abrangente tratado DE
l'électrici té des végétaux.
Professor de física experiment al
em universidades francesas e espanholas, Bertholon deu um
sólido apoio à idéia, já exposta
por Nollet, de que, alterando-se a
viscosidade, ou resistência dos
fluídos, nos organismos vivos, a
eletricidade podia provocar
mudanças em seu crescimento.
Citava a informação de um f ísico
italiano, Giuseppe Toaldo,
segundo o qual dois jasmineiros
perto de um pára-raios haviam
chegado à incrível altura de 9
metros, enquanto os demais do
mesmo grupo permaneciam com
1,20 metro.
Bertholon, que era considerado
meio fei ticeiro, punha um
jardineiro de pé numa prancha de
materia l isolante para molhar sua
horta com um regador
eletrificado.
Garantia que as
verduras cresciam
extraordinariamente. De sua
invenção é também o que ele
mesmo chamou de "eletrovegetômetro", um
aparelho para captar a
eletricidade atmosférica
através de uma antena e
transmiti -la às plantas.
Escrevendo sobre o invento,
disse que ele "se aplica à
produção vegetal de todo
tipo, em toda parte, seja qual
for o tempo; sua utilidade e
eficácia não podem ser
ignoradas nem postas em
dúvida, salvo pelas almas
tímidas que não se
entusiasmam com as
descobertas e que nunca hão
de deitar abaixo as barreiras
da ciência, mas sim
permanecer covarde à qual,
por paliativo, costumam dar o
nome de prudência". Em sua
conclusão, o abade ousava
sugerir que o melhor
ferti lizante para plantas,
algum dia, haveria de vir "livre dos céus" em forma
elétrica. |
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